Sobre o Blog

Blog sobre o Vale do Amanhecer, Doutrina concebida pela Espiritualidade Maior e executada por Neiva Chaves Zelaya, um Espírito de Luz Altíssima, conhecido nos Planos Superiores por Agla Koatay 108. O Vale recebe pessoas sem distinção para solução de problemas espirituais. Nada cobra de seus pacientes e nem exige frequência. Temas espirituais diversos são tratados aqui. Vicente Filgueira, Adjunto Esdalvo - Jornalista (Registro Profissional Fenaj 274/03/38§ v/DRTGo-01364-SJP)


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27 de jul. de 2009

Rituais Milenares

Esta comunicação procura descrever e analisar o uso do filme e da linguagem cinematográfica na pesquisa em antropologia, a partir de um estudo sobre rituais realizado na comunidade religiosa milenarista do Vale do Amanhecer (D.F., Brasil). Apresento dados de minha tese de doutorado, na qual associei procedimentos da metodologia clássica em antropologia a métodos audiovisuais, em particular, o uso do filme (Super 8mm e vídeo Hi8mm) na produção de imagens, destacando a observação diferida das imagens rituais. 

As cerimônias religiosas do Vale do Amanhecer caracterizam-se por um espetáculo visual que encontra sua principal força no conjunto heteróclita das indumentárias rituais e nas técnicas corporais dos adeptos. Com o objetivo de celebrar o corpo, as indumentárias impõem limites aos movimentos e gestos dos participantes, estabelecendo um padrão de comportamentos rituais.

Autor: Marilda Batista
Doutora em Antropologia e Cinema pela Université de Paris X-Nanterre

*Marilda Batista
Revista Chilena de Antropología Visual - número 4 - Santiago, julio 2004 -
286/299 pp. - ISSN 0718-876x.
Rev. chil. antropol. vis.



Neste trabalho, apresento dados de minha tese de doutoramento, na qual desenvolvi um estudo sobre os rituais da comunidade religiosa milenarista do Vale do Amanhecer (DF). Associando a perspectiva antropológica à metodologia audiovisual, o filme foi utilizado como principal meio de exploração e suporte para a análise dos rituais, em particular, no estudo do ritual da Estrela Candente. Foram colocados em evidência os aspectos cênicos das práticas rituais com o propósito de restituir e comparar as diferentes mises en scène. A observação diferida das imagens fílicas  e  a   análise das inúmeras mises en scène rituais revelaram a existência de uma verdadeira lógica do espetacular, sendo esta uma das chaves para a compreensão do processo ritual na comunidade. O estudo busca contribuir para o desenvolvimento do conhecimento do campo religioso, ao evidenciar a pertinência do uso da linguagem cinematográfica na pesquisa antropológica.

O Vale do Amanhecer é uma comunidade religiosa, com aproximadamente sete mil habitantes, situada a cinqüenta quilômetros de Brasília, próxima da cidade-satélite de Planaltina. Os habitantes da comunidade são, em sua maioria, funcionários públicos ou trabalham no setor terciário e se deslocam diariamente para trabalhar em Brasília. Além dos adeptos que frequentam a sede da comunidade, existiriam cerca de setenta mil adeptos em todo o Brasil, repartidos nos trezentos templos externos, de acordo com as estatísticas informais da própria comunidade.


Na década de oitenta, a comunidade foi amplamente divulgada pelos meios de comunicação locais, tendo sido feitas várias reportagens em jornais e revistas, quando serviu até de cenário a capítulos de uma telenovela de grande audiência transmitida para todo o país.

De inspiração milenarista, o Vale do Amanhecer visa preparar a humanidade para a chegada do terceiro milênio, período que, acredita-se, será precedido de conflitos e cataclismas apocalípticos, dos quais os únicos sobreviventes seriam o “povo eleito” constituído pelos membros da comunidade. O conjunto dos “ensinamentos” ou a doutrina do Vale do Amanhecer é fundamentalmente inspirada no espiritismo de Allan Kardec. Como no espiritismo kardecista, a noção de “mediunidade” se encontra no centro da doutrina do Amanhecer, qualquer pessoa podendo se tornar médium e, consequentemente, um adepto da comunidade, desde que desenvolva sua mediunidade.

A comunidade foi fundada em 1959 por uma mulher, Neiva Chaves Zelaya, na mesma época da criação de Brasília. Segundo relatos de adeptos e documentos publicados pela comunidade, Neiva tinha apenas 24 anos quando ficou viúva com quatro filhos pequenos. Foi então que resolveu deixar o Nordeste, sua região natal, para partir em direção ao Planalto Central a fim de exercer a profissão de motorista de caminhão. Dizia-se que, naquela época para ser respeitada, Neiva levava seus filhos consigo na boléia de seu caminhão.

De forte personalidade, ao mesmo tempo vaidosa e determinada, Neiva foi obrigada, alguns anos depois, a abandonar seu trabalho de motorista de caminhão, pois começou a ter visões que a impediam de trabalhar. Através destas visões, Neiva recebeu um chamado para se consagrar a uma missão especial, ou seja, à fundação de uma comunidade destinada a auxiliar as pessoas necessitadas.

A partir daquele momento, Neiva, clarividente e guiada por suas visões, decidiu dedicar sua vida à edificação da comunidade do Vale do Amanhecer, sendo, desde então, carinhosamente chamada pelos adeptos de Tia Neiva.

Apesar de sua morte aos sessenta anos de idade em 1985, Tia Neiva permanece uma figura carismática, sendo objeto de grande devoção entre todos os adeptos. Após seu falecimento, um grupo de quatro pessoas, todos homens, assumiu a direção da comunidade, incluindo seu companheiro Mário Sassi. Atualmente, três membros da direção, juntamente com os filhos de Tia Neiva, mantem o controle da comunidade.

Desde sua fundação, o Vale do Amanhecer consagrou-se como um lugar de trabalho ritual e terapêutico organizado em torno da clarividente Tia Neiva, cujos poderes sobrenaturais sempre foram reconhecidos por toda a comunidade. Por sua mediunidade, pelos contatos desenvolvidos com o mundo sobrenatural e seus poderes de cura, Tia Neiva assemelha-se à figura do profeta, “portador de carismas pessoais”, tal como foi definido por Max Weber.

Dando origem ao que, posteriormente, seria estabelecido como sendo a doutrina do Vale do Amanhecer, as primeiras mensagens de origem divina, recebidas através das visões de Tia Neiva, foram transcritas à mão pela clarividente transformando-as em cartas endereçadas aos adeptos. Levando em conta que Tia Neiva, semi-analfabeta, não tinha o domínio da escrita e a fim de facilitar a leitura, as cartas foram posteriormente datilografadas, fotocopiadas e distribuídas entre os adeptos visando sua formação. De acordo com os membros da comunidade, toda e qualquer criação da doutrina e das práticas rituais provem de mensagens divinas, sendo Tia Neiva a única e exclusiva porta-voz do mundo dos espíritos.
À medida que as revelações foram sendo feitas, constituíam-se gradativamente os elementos materiais que hoje se encontram presentes no espaço físico da comunidade, bem como no aparato ritual, em particular, nos trajes, indumentárias e atributos usados pelos adeptos durante as cerimônias.

No contexto ritual do Vale do Amanhecer, os trajes e atributos usados pelos adeptos são ostensivos e permitem situar os médiuns uns em relação aos outros no que diz respeito aos estatutos, nível de participação e função nos rituais, bem como ao pertencimento a uma linhagem espiritual. Os atributos colocados em evidência têm a forma de cruzes, triângulos, imagens de divindades protetoras, assinaturas e títulos referentes ao estatuto de cada membro. Há também uma relação entre o número de trajes que o adepto possui e o nível de responsabilidade associados a seus papéis e funções. Assim, quanto mais o adepto evolui em sua condição de iniciado, maior autoridade lhe será atribuída e maior será o numero de trajes e de sinais visuais de identificação nas indumentárias.

Os adeptos do Vale do Amanhecer constituem-se em duas categorias: os homens chamados de “jaguar” e as mulheres de “ninfa”.. Organizados em pares -homem, mulher- durante os rituais, os adeptos atuam segundo o tipo de orientação ou mediunidade. Assim, os médiuns podem ser classificados em “mestre sol” ou “mestre lua”. O mestre sol também conhecido por mestre de doutrina ou “doutrinador” tem por função doutrinar os espíritos, enquanto o mestre lua denominado mestre de incorporação ou “apará"5. A palavra apará seria uma abreviação de Nossa Senhora de Aparecida, padroeira do Brasil., se torna, no momento do transe, o aparelho através do qual os espíritos se manifestam.


Ao propor duas formas de mediunidade, a doutrina do Vale do Amanhecer funda a divisão dos papéis sexuais complementares nas funções rituais na base de “qualidades” femininas e masculinas, histórica e socialmente construídas. Os médiuns “apará”, em sua grande maioria, mulheres, são identificados à emoção, ao corpo, às forças da lua, enquanto que os médiuns “doutrinador”, na maior parte, homens, estão relacionados com a razão, a palavra, as forças do sol, categoria da qual fazem parte grande número dos líderes da comunidade.

Durante a primeira fase de iniciação, o médium usa um traje simples e sóbrio, os homens vestem calça preta com uma túnica branca, enquanto que as mulheres vestem um longo vestido branco de mangas três-quartos. Após algumas semanas, estes mesmos médiuns serão autorizados a usar insígnias em forma de estrela, triângulo, cruz contendo os nomes das entidades protetoras. Algum tempo depois, ao se tornar mestre, o médium será autorizado a vestir a roupa de “jaguar”, ou seja, calça marrom e camisa preta, na versão masculina, e saia longa marrom com blusa rendada preta, na versão feminina. Ambos adeptos usarão um colete branco de couro ou de plástico onde haverá várias insígnias, presas com alfinetes, incluindo cartão com a foto de identidade, juntamente com assinaturas indicando o grau de “mestre jaguar”. Após ter adquirido a formação necessária correspondente ao nível de “mestrado”, os médiuns poderão vestir os trajes característicos das falanges missionárias, capas masculinas e conjuntos bem mais sofisticados, em sua versão feminina, acompanhados de véus, luvas, pentes e capas em tecidos leves, coloridos e brilhantes, especialmente criados para as cerimônias na Estrela Candente.

Existem vinte e dois grupos de falanges missionárias com características e atribuições próprias compostas, exclusivamente, por mulheres e, somente, dois grupos formados por adeptos homens.

O espaço físico da comunidade foi edificado através da construção de monumentos e áreas de culto localizadas nas imediações do templo principal. A maior parte das construções caracterizam-se pela presença de painéis em pontos estratégicos, visíveis a todos, fazendo referência à preceitos e dogmas da doutrina do Amanhecer. No caminho que leva o adepto do templo principal ao espaço sagrado da Estrela Candente, avista-se uma colina contendo a inscrição em letras monumentais “Salve Deus” lembrando a saudação utilizada entre os membros da comunidade com a qual Tia Neiva sempre iniciava ou terminava suas cartas.

Dentre as práticas rituais, destaca-se o ritual da Consagração também conhecido pelo nome de Estrela Candente, em referência ao espaço ao ar livre construído especialmente para as cerimônias. Considerado como sendo o cartão postal da comunidade, o ritual da Estrela Candente é celebrado diariamente, três vezes ao dia, com uma duração aproximada de quarenta e cinco minutos e a participação de um mínimo de trinta adeptos. Um grupo limitado de pessoas não iniciadas -de cinco a dez no máximo- podem assistir às cerimônias, de forma passiva, na condição de pacientes buscando se beneficiar com as energias manipuladas durante os rituais. Segundo os adeptos da comunidade, o ritual da Estrela Candente tem por objetivo principal receber as energias positivas trazidas pelos espíritos em naves espaciais que aterrissam três vezes ao dia, em horários específicos, bem como enviar para outros planos os espíritos nefastos, responsáveis por todos os males na superfície terrestre. As energias positivas acumuladas durante os rituais da Estrela Candente serão assim utilizadas posteriormente em todas as cerimônias e, em particular, nos rituais de cura também praticados na comunidade.

Com um atendimento aberto ao público diariamente das dez às vinte e duas horas, o Vale do Amanhecer se define como sendo um “pronto-socorro universal”, denominação utilizada pelos próprios membros da comunidade.

No espaço ritual da Estrela Candente, encontram-se diferentes elementos, também representados com dimensões espetaculares, onde estão gravadas inscrições com preces. Estas inscrições têm por objetivo auxiliar a memória dos adeptos no momento da prática ritual. No decorrer do ritual, pode-se observar a importância dada à escrita através da representação de um livro aberto pintado numa enorme lápide em forma triangular localizada no alto da cachoeira. O livro contém uma prece que deve ser recitada pelos adeptos numa determinada fase do ritual, no exato momento em que cruzam a ponte que passa em cima da cachoeira.


O controle dos organizadores sobre os adeptos é exercido, em grande parte, com a ajuda de manuais e de formas escritas no próprio espaço ritual. Mesmo se uma grande proporção de adeptos do Vale do Amanhecer provem de classes populares, eles possuem um mínimo de instrução que lhes permite ler as diversas indicações escritas. No decorrer dos rituais, é possível, de fato, orientar-se graças às indicações visuais que se apresentam na forma de textos, lembrando de maneira visível e em momentos precisos, as preces que devem ser recitadas. Os exemplos que foram escolhidos atestam a importância atribuída à regra escrita, visto que as preces encontram-se representadas com formas monumentais. A representação visual pela escrita assume uma função determinante na medida em que ela ordena e mantém uma certa unidade ao longo dos rituais.

Divindades astecas e egípcias, pretos-velhos, princesas e caboclos encontram-se representados lado a lado no impressionante conjunto de indumentárias rituais utilizadas pelos adeptos no decorrer das cerimônias.
Além da diversidade do vestuário do corpo mediúnico, os agentes dos rituais recitam preces misturando frases e gestos que permanecem incompreensíveis aos leigos, tanto quanto a multiplicidade de imagens e símbolos presentes no espaço ritual. Alvo de curiosidade freqüente da parte de turistas e até mesmo de representantes de outras religiões, o Vale do Amanhecer, algumas vezes incluído no roteiro turístico da cidade, atrai muitos turistas e simpatizantes. Seria, precisamente, a qualidade do espetáculo proposto pelos rituais da comunidade um dos fatores que justificaria em parte o sucesso diante de um público de adeptos e de simples visitantes?
Esta hipótese inicial levou-me a abordar, em prioridade, os aspectos visuais dos rituais utilizando o cinema e o vídeo como instrumentos de pesquisa.

Referências bibliográficas:*Batista, Marilda: Les dimensions spectaculaires du rituel de l’Estrela Candente au Vale do Amanhecer (Brésil). Une étude d’anthropologie filmique. (Tese de doutoramento orientada pela Prof.a Dra. Claudine de France), Université de Paris X-Nanterre, 2000.Comolli, Annie: Les Gestes du savoir ou la découverte filmique des apprentissages. Nanterre, Université de Paris X, Formation de Recherches Cinématographiques, collection Cinéma et Sciences Humaines n° 1, 1991 [1983].
France, Claudine de: L’analyse praxéologique. Composition, ordre et articulation d’un procès, Revue Techniques et Culture, n° 1, Paris, Editions de la Maison des Sciences de l’Homme, 1983, janvier-juin, pp. 147-170.
__________: Du film ethnographique à l’anthropologie filmique. (Textes rassemblés et présentés par Claudine de France) Paris-Bruxelles-Bâle, Editions des Archives Contemporaines, 1994.

__________: Le destinataire du rite et sa mise en scène filmique. Revue Cinéma, rites et mythes contemporains, n° 16, 1993, pp. 121-143.
__________: Cinéma et anthropologie. Paris. Editions de la Maison des Sciences de l'Homme, 1989 [1982].
__________: Pour une anthropologie visuelle (ed.)Paris, Mouton, 1979.
France, Xavier de: Eléments de scénographie du cinéma. Nanterre, Université de Paris X, Formation de Recherches Cinématographiques, collection Cinéma et Sciences Humaines n° 8, 1989 [1982].

14 de jul. de 2009

Memórias de um repórter



Abaixo, relato de Tia Neiva no livro. O

autor, jornalista Fernando Pinto, não

permite a publicação de mais páginas...





13 de jul. de 2009

Caetano Veloso no Vale

No ponto mais interessante da pesquisa que fez sobre o Vale do Amanhecer, Maria Cristina de Castro Martins diz que Caetano Veloso - ícone da Música Popular Brasileira - compôs Um Índio depois de ser recebido por Tia Neiva na Casa Grande. Quem contou essa passagem para a historiadora foi uma professora da rede pública, chamada Ana, que à época era uma das muitas meninas da Casa Grande. Diz que Caetano Veloso, rodeado de pessoas, visitou o Templo e que, diante da imagem de Pai Seta Branca, se inspirou, escrevendo rapidamente a letra daquela música. Na ocasião, relata a historiadora, " o Vale do Amanhecer recebia diversas pessoas em busca de paz, curiosos, estudiosos, artistas, políticos, cantores e até compositores". Caetano teria ficado muito emocionado com a imagem de Pai Seta Branca, o que o levou a compor a canção Um Índio". 
Na canção de Caetano, um índio descerá de uma estrela colorida brilhante e pousará no coração do hemisfério sul na América, num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico. Para os médiuns, segundo o apanhado de Maria Cristina, "o índio é o Pai Seta Branca, cacique inca, mentor espiritual de Tia Neiva. A estrela colorida e brilhante é a estrela Mayante, lugar onde vivem os espíritos mais evoluídos que descem ao Vale do Amanhecer para trabalhar incorporados nos médiuns Aparás, com a finalidade de promover a cura do espírito. O coração do hemisfério sul da América, o ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico, o centro do mundo, lugar predestinado para se encontrarem os que se preparam para a entrada do terceiro milênio, o próprio Vale do Amanhecer".
Na concepção da historiadora, há um forte elo entre a letra composta por Caetano Veloso e a Doutrina: "Percebe-se que, no momento em que o índio descer, aquilo que se revelará aos povos, surpreenderá a todos pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio. Para os moradores do Vale do Amanhecer, o tempo se divide em ciclos milenares e a fundação e o encerramento de cada milênio está a cargo da intervenção direta de um personagem sagrado. No caso do milênio em que estamos vivendo, o responsável é o índio Pai Seta Branca que descerá e encerrará o milênio, levando todos os seguidores da doutrina do amanhecer para o Astral Superior, onde não mais encarnarão. Assim, com a evolução dos espíritos, tudo que antes parecia pertencer ao ocultismo, nada mais será do que o óbvio".


Um Índio 


"Um índio descerá de uma estrela colorida brilhante
de uma estrela que virá numa velocidade estonteante
e pousará no coração do hemisfério sul na América num claro instante
depois de exterminada a última nação indígena
e o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias
virá impávido que nem muhammad ali
virá que eu vi apaixonadamente como peri
virá que eu vi tranquilo e infalível como bruce lee
virá que eu vi o axé do afoxé dos filhos de Gandhi
virá
um índio preservado em pleno corpo físico
em todo sólido todo gás todo líquido
em átomos palavras alma cor em gesto em cheiro em sombra em luz em som magnífico
num ponto equidistante entre o atlântico e o pacífico
de objeto sim resplandecente descerá o índio
e as coisas que eu sei que ele dirá fará não sei dizer assim de um modo explícito
e aquilo que nesse momento se revelará aos povos
surpreenderá a todos não por ser exótico
mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
quando terá sido óbvio".



Caetano Emanuel Viana Teles Veloso, mundialmente conhecido como Caetano Veloso, nasceu em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, no dia 7 de agosto de 1942. Ele é músico, produtor, arranjador e escritor.
Os gêneros musicais, em que ele está classificado, são: Música Popular Brasileira, Tropicália, Poesia marginal, Bossa Nova, Samba, Rock, Pop, Música latina e World Music.


A Cura no Vale


Cura no Vale do Amanhecer

 Ana Lúcia Galinkin

Pesquisadora lança livro que investiga os métodos de cura da líder do Vale do Amanhecer 

O Vale do Amanhecer é um enigma para a ciência. Formada em psicologia e com mestrado em antropologia, Ana Lúcia Galinkin seguiu o chamado e hoje lança A cura no Vale do Amanhecer, livro em que mergulha nos rituais de cura de Tia Neiva, líder carismática da Doutrina do Amanhecer, que veio em 1957 trabalhar na construção da nova capital. A obra será lançada hoje, às 19h, no Rayuela Livraria e Bistrô (412 Sul). O trabalho debruça-se sobre os mecanismos de vidência de Tia Neiva. 

Mistérios de Tia Neiva
Tia Neiva em foto histórica no Vale do Amanhecer: poderoso dom espiritual para cura de doenças


Ana Lúcia Galinkin usou conceito de Lévi-Strauss na pesquisa

O livro é fruto de tese de mestrado em antropologia social realizada nos anos 1970. O que mudou na maneira como você olhou para o Vale do Amanhecer na época e como olha hoje? 
Ocorreram muitas mudanças no Vale do Amanhecer nesse período de 30 anos. Entre a dissertação de mestrado, que deu origem ao livro A cura no Vale do Amanhecer, e hoje, o acontecimento mais impactante foi o falecimento de Tia Neiva, líder espiritual carismática da Doutrina do Amanhecer. Tia Neiva tinha um papel fundamental na dinâmica da vida social e religiosa daquela comunidade. As mensagens enviadas aos adeptos pelo mentor da doutrina, Pai Seta Branca, e de outras entidades de luz, por meio da mediunidade de Neiva, davam sentido e sacralidade à existência do Vale e aos feitos que ali ocorriam, como a criação de rituais, a introdução de entidades, as explicações para o sofrimento, outros lugares de culto. A origem do Vale e todas as criações e inovações que ocorriam naquela época eram atribuídas a revelações das entidades, em particular Pai Seta Branca, por meio dos dons extraordinários de Neiva. O carisma da clarividente operava como um catalisador que agregava os adeptos em torno das propostas e metas da organização religiosa. E, como afirma Max Weber, os seguidores acatam essa forma de liderança e suas profecias de maneira reverente e entusiástica. 

Tia Neiva tinha outros dons? 
Neiva fazia ainda revelações sobre a vida pretérita das pessoas, em outras encarnações, dando sentido à sua existência atual. O lugar de profetisa e clarividente de Tia Neiva não foi ocupado por outra liderança e não há mais as revelações que dinamizavam a vida religiosa dos seguidores. Também a preparação para o Terceiro Milênio, dos acontecimentos que poriam fim à antiga Era e dariam início aos novos tempos, foi reinterpretada. A realidade atual do Vale do Amanhecer demanda, certamente, outros olhares e outras leituras dos acontecimentos. 

Qual o interesse dessa comunidade para um antropólogo hoje? 
Trata-se de um novo momento do Vale do Amanhecer, que tem sido analisado por pesquisadores das áreas de história, antropologia, semiótica, sociologia, mostrando a riqueza de possibilidades de leitura daquela comunidade religiosa. Em minha pesquisa, abordei apenas a concepção de doença e cura. Muitos outros aspectos daquela comunidade religiosa poderiam ser analisados. 

Qual a importância da cura e o que entende por ela na sua pesquisa? 
Naquela época, os objetivos da organização religiosa do Vale do Amanhecer eram promover a cura das mais diversas formas de sofrimento das pessoas e preparar a humanidade para a entrada do Terceiro Milênio. Os adeptos da doutrina realizavam o diagnóstico e tratamento de tais sofrimentos nos rituais de desobsessão, usando de sua mediunidade, pois “doença” e sofrimento, segundo a concepção dessa doutrina, têm como causa espíritos obsessores que assediam as pessoas. Interpreto os rituais de cura tendo como referência a concepção de eficácia simbólica, como descrita por Lévi-Strauss. Segundo o etnólogo, o que o paciente busca é uma explicação para o seu sofrimento, um sentido para sua perturbação integrando-a a um sistema de referência que reorganiza e torna compreensível seu padecimento. 

A CURA DO VALE DO AMANHECER 
De Ana Lúcia Galinkin. Editora Techno, 152 páginas. Lançamento hoje, às 19h, no Rayuela Livraria e Bistrô (412 Sul). R$ 35. 
Reportagem de SÉRGIO MAGGIO, Correio Braziliense, 12/11/2009

12 de jul. de 2009

Energias (Tia Neiva)



Data post:2012.07.25
Palestra de Tia Neiva(Sem data)
“(...) O Terceiro Sétimo é um Oráculo que se une no espaço, é uma casa transitória, do poder de mestre sol e mestre lua, do vale do Amanhecer, do Templo Mãe. São linhas que vêm, se juntam e formam esse poder, o Terceiro Sétimo. O Terceiro sétimo é o Oráculo que recebe as bençãos e mantras, mil mantras.  Recebe também energia. Salve Deus! A energia, meus filhos, é uma coisa muito séria de se falar. Existe a energia nativa. Essa da vida, com que se caminha, que se anda, é uma energia.
Existe a energia extra-etérica – que vem dos campos magnéticos do Astral. Existe a energia etérica – Ela é magnética e manipula com a força do mestre jaguar, ou com a força do homem, que é a força vital, a força animal. Então, a força extra-etérica nós recebemos sob a benção do prana – força da luz cósmica – imantra e forma o nosso sol interior. A dupla energia, que é o poder da desmaterialização, materialização e fixação; a fixação é o trabalho que vocês fazem nos Tronos. Fica registrado por muito tempo. Ali, quando o mestre é amoroso e tem bons pensamentos, em Cristo Jesus, ele emite apenas mantras. Os mantras luminosos, os mantras de uma manipulação da força vital de energia extra-etérica forma um poder de cura desobssessiva. É assim que trabalhamos.
A energia é diferente. Para você receber uma energia tem que haver uma jornada, como por exemplo, a Cruz do Caminho, em que vocês formam uma jornada; ali vem a energia extra-etérica e a energia do jaguar, que é a força animal, o que forma super energia. Ela sobe nos planos, volta e fica pairando de dia e de noite ali sob o véu do Aledá. Depois vem a energia nativa, essa que nós carregamos sem o conhecimento de uma doutrina ou de um ritual. Agora, nesses últimos tempos, a energia que o mestre jaguar está emitindo, a projeção, é muito grande.  Salve Deus, meus filhos!” Tia Neiva (Degravado de fita produzida em palestra deTia Neiva, estando presente o Trino Arakén. Responsável: Vicente Filgueira, editor de Conteúdos).

10 de jul. de 2009

Tia no Última Hora


Brasília, sábado, 10 de agosto de 1985. Página 13. Marilene Anna Galeazzi para Última Hora-Brasília
(Obs: Tia morreu três meses depois desta entrevista).
O amanhecer de Tia Neiva
Um psiquiatra assustado, um ônibus no rumo do desastre. Assim, a caminhoneira trocou a poeira da cidade em construção pela calma do vale que já abriga cinqüenta mil médiuns. O psiquiatra estava sentando no rústico consultório do hospital de madeira construído junto ao acampamento do I.A.P. I. O único que existia nestas plagas onde Brasília estava nascendo, de um parto acelerado, das mãos dos operários e da poeira vermelha. O sonho de alvorada centro-oestina havia enlouquecido alguns sertanejos. Eram casos raros no meio de tanta esperança. Daí a presença de um psiquiatra. Talvez a bela morena, uma quase cigana de pele trigueira e olhos profundos fosse mais um caso de delírio. de fácil diagnóstico. Afinal de contas no final dos anos cinqüenta a mulher que assumira uma profissão pioneira em todo o Brasil: a de caminhoneira que cortava as estradas do País no seu “Internacional”, com isso já mostrava que as coisas não andavam bem pelo lado de sua cabeça e de seu coração. É realmente não andavam. Neiva Zelaya, a viúva caminhoneira, abriu o jogo para o psiquiatra: “Acho que estou com estafa, tendo alucinações, vendo espíritos e o pior é que estou ouvindo tudo”. Quando o médico que atendia Neiva a pedido de Bernardo Sayão, com quem o marido dela havia trabalhado, tentava lhe explicar que se tratava de um caso típico de pessoa que está trabalhando demais. Neiva viu alguém surgir atrás de um biombo e iniciar um diálogo com ela. O médico prestou atenção no diálogo, que girou em torno de assuntos que ele conhecia muito bem. Coisas familiares. Tratava-se de seu pai. Só que ele havia falecido há algum tempo. Foi a partir deste momento que a motorista profissional se transformou na clarividente “Tia Neiva”, já conhecida pelos quatro cantos do mundo, e o médico tomou uma decisão inesperada. Depois de ficar lívido de espanto, apanhou seus objetos, fechou o consultório, deixou Brasília e nunca mais se ouviu falar nele. - Para quem nasceu de uma família religiosa, nordestina, com padres e freiras, o começo deste trabalho espiritual deve ter sido muito dificil. Não foi, Tia Neiva? Tia Neiva - Foi sim. Eles não gostavam de “macumbeiros” e nem de mulheres independentes. Só pela minha ousadia de ser uma viúva que queria viver sua própria vida já haviam me expulsado de casa uma vez. - Quer dizer que antes de todo este trabalho espiritual, a decisão de ser caminhoneira, principalmente em se tratando de uma viúva jovem e bonita, custou muito caro para a senhora? - Tia Neiva - Custou, mas valeu a pena. Eu sabia, eu sentia que tinha proteção de Deus. Eu sempre me considerei uma boa motorista. Dirigi por várias estradas deste Brasil. Naquela época, os carros não tinham a mecânica de hoje e nem as estradas eram pavimentadas, a não ser umas poucas, nos troncos principais. Por isto, eu era respeitada pelos meus colegas. Justamente por ser considerada boa motorista e boa companheira. - Dá para falar um pouco de sua atuação como motorista, na época em que Brasília estava sendo construída? - Tia Neiva - Meu carro, um internacional, estava fichado na Novacap e as tarefas eram sempre variadas. Mas sempre elas começavam cedo e não era raro eu estar na rua às 5 ou 6 horas da manhã, com a carroceria cheia de candangos para serem levados para os canteiros. Trabalhávamos muito e, naquela época, a gente tinha que dirigir devagar. O movimento do Núcleo Bandeirante era intenso, as ruas muito cheias de buracos e o povo muito descuidado. Tenho recordações cheias de amor daqueles tempos pioneiros. - Os pioneiros que a conheceram naquela época ainda lembram de muitas histórias que contavam a seu respeito. Entre outras coisas, a de que a senhora tinha contatos com espíritos, enquanto dirigia seu caminhão. Dá para falar sobre isto? - Tia Neiva - Na realidade eu já estava recebendo mensagens e mantendo contato há algum tempo. Coisas que me deixavam, ainda por falta de maiores esclarecimentos, muito perturbada. Um dia, dirigindo perto da construção do Brasília Pálace Hotel, fui sacudida violentamente pelo meu filho, a única pessoa que estava comigo na cabine do caminhão. Ele achou que eu estava delirando, já que mantinha diálogo com uma pessoa invisível. Esta pessoa me mandava, com maior urgência, para casa, onde uma mulher necessitava do meu socorro. Eu tentava argumentar e relutava em não ir. Mas fui, e tudo aquilo que o ser invisível para meu filho me falou, realmente aconteceu. Isto foi o inicio de uma série de fatos deste tipo. - E a história de que a senhora previu o acidente de um ônibus na Cidade Livre e de que salvou a vida de duas pessoas é verdade? - Tia Neiva - É, e realmente se trata de uma das coisas mais fantásticas que aconteceram comigo. Um dia, depois de pensar que tinha passsado com meu carro em cima duas pessoas; que na realidade eram dois espíritos, fui a um posto de abastecimento que ficava junto a um restaurante de um casal de japoneses, meus amigos e velhos conhecidos. Pedi ao lavador do posto para dar uma lavada no rápida na carroceria e no chassis, enquanto bebia um café, fumava um cigarro, recostada no batente da porta do bar. Do outro lado da rua observei um homem que trazia na cabeça uma espécie de televisão. Era um pequeno aparelho, por onde comecei a ver o futuro imediato. Entre outras coisas, vi uma moça se aproximando o que realmente aconteceu após, e um grande acidente de ônibus, onde aconteceriam algumas mortes. Quando vi o ônibus na minha visão aparecer, saí correndo, me peguei no braço do desconhecido, sob os protestos da moça, que um tanto ciumenta tentava me empurrar. Implorava para que ele não subisse no ônibus e, no meio de toda esta confusão, ele realmente nãos eguiu viagem.
Em poucos minutos, aconteceu um grande estrondo como se fosse uma grande explosão. No bar, todos ficaram silenciosos.
Distante um quilômetro de onde nos achavámos, numa curva acentuada, aconteceu o terrível acidente com o ônibus, cujo trágico saldo foi de 4 mortos e vários feridos. - Não era dificil viver assim, tão no meio de dois mundos? - Tia Neiva - Foi neste tempo que comecei a viver no meio de uma multidão silenciosa que me assistia e de outra barulhenta que me exigia respostas. A primeira invisível, estava sempre me influenciando, ajudando na aproximação de mundos inesperados, e só Deus sabia o que chegava ao meu misterioso mundo interior. - Desta maneira é que foi chegando a sua evolução. Foi assim, aos poucos, que a senhora inicia sua missão? - Tia Neiva - Mãe Yara, uma das minhas mentoras, ja havia entrado em contato comigo para me dizer que sem luta não há evolução. Ai eu pedi para que ela me ajudasse, me iluminasse, para que eu fosse exatamente aquilo que Deus queria. E os meus tristes hábitos, o que fazer com eles? Foi então que não era preciso repudiar estes hábitos, já que o belo é o resplendor do verdadeiro. Ela me dizia: Não saia de você mesma, seja natural, ame o que sempre amou e recuse o que sempre recusou. A única diferença, Neiva, é aprender e tolerar os seus amigos, até que você se faça acreditada. Este será o período mais difícil de sua missão, porém, só Deus conhece Deus. - A a senhora realmente se tornou uma pessoa acreditada. É só ver o Vale do Amanhecer nestes anos todos. Ou seja, em 16 anos, tão poderoso, tantas crianças abandonadas e tantos médiuns. Como funciona isso aqui? - Tia Neiva - Aqui moram em torno de 3.500 pessoas. O Vale do Amanhecer, esta comunidade religiosa que é visitada por pessoas de todas as partes do mundo, já tem mais de 50 mil médiuns. No Brasil inteiro, os médiuns seguidores da Doutrina do Vale do Amanhecer já somam o número de 100 mil. Atualmente temos 42 templos espalhados pelo Brasil, todos funcionando sob a coordenação dos Templo do Vale, que é dirigida pelo meu filho Beto Zelaya. Temos muitas crianças abandonadas vivendo em nossa comunidade. Algumas são encaminhadas pelos juizado de menores. Todas criamos com muito amor e elas são, na verdade, a razão de nossa grande alegria. - Tia Neiva, a senhora é uma clarividente e, segundo vários estudiosos do assunto, possivelmente seja a única do mundo nos dias atuais. O que é exatamente uma vidente? - Tia Neiva - A clarividente é uma pessoa que tem consciência simultânea em vários planos. Enquanto a pessoa está aqui, consciente, pode estar em outro plano também. - Quer dizer que a senhora, para fazer os seus trabalhos, não precisa mais incorporar? - Tia Neiva - Não, eu não incorporo, trabalho completamente consciente. - E esta história que corre pela cidade de que a senhora possui um lugar onde desceriam naves e que mantém contatos com os extraterrestres, é verdade? Se for, conte direitinho esta história para a gente. - Tia Neiva - Ha muitos anos mantenho contatos com as “Amacês”, que a maioria das pessoas chama de naves espaciais. Três vezes por dia elas chegam junto a “Estrela Candente do Vale”, é um templo aberto, para nos ajudar. Os seres que estão nelas deixam as energias boas e levam as as energias e os espiritos negativos. Não me considero uma ufóloga, nem uma parapsicóloga. A coisa, a nível de extraterrenos, existe, mas não é da maneira que se fala. É um fenômeno etérico. Só vê quem tem o poder de enxergar em outras dimensões. - As suas previsões são famosas. Duas delas, inclusive, mereceram destaque na Imprensa de sérios países: a descoberta do ouro em Serra Pelada e a Guerra nas Malvinas. O que a senhora tem a dizer agora sobre a AIDS, esta assustadora doença que virou a sombra da morte para a humanidade? - Tia Neiva - É mais uma manifestação da lei de causa e efeito. A lei do retorno. Jogar a bomba atômica em Hiroshima não foi bom para a humanidade. Tudo o que se faz, se recebe de volta. - Com isto a senhora está querendo dizer que os americanos serão, em maior número, as grandes vitimas da AIDS? - Tia Neiva - Eu apenas quero dizer que não foi positivo jogar a bomba atômica em Hiroshima. Aquele povo sofreu muito. A lei de causa e efeito tem se manifestado muito nestes tempos em que se aproxima o Terceiro milênio. - Que dizer que a AIDS não tem cura, Tia Neiva? Quer dizer que o homem está condenado? - Tia Neiva - A AIDS, antes que se espera, vai ter cura. Cientistas já estão trabalhando para isto. - A senhora concorda com as pessoas que afirmam que a AIDS é transmitida pelo contato sexual? A senhora sabia que, por causa disto, já estão provando que, em várias partes do mundo, está diminuindo o relacionamento sexual entre as pessoas? - Tia Neiva - Isto não é verdade. Em alguns casos pode ter havido coincidência. O que está havendo mesmo, é um pânico geral, igual ao que aconteceu no caso do herpes nos Estados Unidos, em outras épocas. Eu afirmo que, mais do que a AIDS, uma outra doença vai preocupar a humanidade. Eu já falei sobre esta ela nos anos sessenta e em recentes previsões. Ela vai ser transmitida por uma fruta. Quem comer desta fruta, vai se tornar transmissor. - Voltando a AIDS, já tem cura para ela no Vale do Amanhecer? - Tia Neiva - O que eu posso dizer é que na época em que aconteceu uma verdadeira epidemia de meningite nenhum de nossos cinqüenta mil médiuns foi atacado por ela. Rezamos muito, fizemos trabalhos e fizemos muita defumação. Agora mesmo estamos recebendo ordens dos nossos mentores para vermos, a partir da próxima semana, o que poderemos fazer em relação a AIDS para defender nossa gente. O importante é ter fé, amar a Deus e ao próximo. A lei do amor e a proteção de Deus tudo se resolve. Mas, de uma vez por todas, a história da AIDS não é exatamente o que dizem. Vai ter cura. Tudo será resolvido e é bom as pessoas terem consciência e calma em relação a este assunto que já está virando uma neurose mundial.
- Todo ser humano, seja homem ou mulher, faça o tipo de trabalho que fizer, sempre, geralmente para obter sucesso
conta com um companheiro ou companheira. A partir de que Mário Sassi, seu atual marido, entrou na sua vida, o que ele representou para toda esta obra? - Tia Neiva - Tudo. Se não fosse ele, não existiria o Vale do Amanhecer. Eu sou missionária e ele ajudou a segurar a barra, que foi pesada. Ele sabe as coisas que se passam comigo. Ao nos olharmos, sem dizermos uma palavra sequer, estamos nos comunicando. Nós tinhamos encontro marcado. Tínhamos que nos unir para este trabalho. - Tia Neiva, como a senhora consegue viver apensa com um terço de um pulmão e diretamente ligada a uma máquina de oxigênio, onde chega a consumir dois litros por hora? De onde vem tanta energia? Quem é este seu Deus? - Tia Neiva - Vivo assim há muito tempo e continuarei vivendo até quando Deus quiser, enquanto meu pai Seta Branca precisar de mim aqui para este trabalho. A força que me move é a força do amor, que é a energia que resolve todos os problemas, a energia que transforma o mundo. O meu Deus é o Deus Hieroglífico. O poder supremo que está em todas as coisas. Neste planeta, nas plantas, no aroma das matas frondosas, no mar, no espaço, nas estradas, na porta estreita da vida, na dor e no fundo do nosso coração. O Deus que mostramos aqui no Vale do Amanhecer, na preparação do homem do Terceiro Milênio.Um Deus que quando as pessoas encontram, não conseguem mais viver sem ele. Um infinito caso de amor.


Origens do Pai


Por Mrs. Carmen Luisa Chaves Cavalcante

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - Brasil

1.  Sobre o Vale do Amanhecer

A comunidade religiosa do Vale do Amanhecer tem um forte apelo milenarista e é marcada por um intenso hibridismo religioso. Fundada em 1968 e localizada a 6 km de Planaltina, cidade satélite de Brasília, teve sua criação diretamente associada à vida da sergipana e ex-caminhoneira Neiva Chaves Zelaya, mais conhecida como Tia Neiva, e às supostas aparições de uma entidade indígena chamada Pai Seta Branca, seu mentor espiritual.
Em 1957 Tia Neiva, de acordo com os adeptos, passou a ver e ouvir espíritos. Um cacique enfeitado com plumas brancas e falando espanhol foi o primeiro a se manifestar. Identificando-se como Pai Seta Branca, essa entidade estaria a serviço de uma grande missão aqui na Terra. Uma vez que não mais poderia encarnar, teria escolhido Tia Neiva como sua substituta na criação de uma doutrina que, através da prática da cura espiritual, iria preparar a humanidade para a chegada do terceiro milênio. Época em que não existiriam dor e sofrimento.

2.  Pai Seta Branca e o mito fundante da comunidade           

Pai Seta Branca é uma presença constante na história do Vale do Amanhecer. Nas narrativas míticas dos fiéis, é considerado um “espírito de luz”, “um espírito que se alimenta das energias do ‘céu’”. Possui atributos divinos e é identificado como “algo único e ímpar, criado por Deus, o qual um dia na eternidade iniciou uma trajetória, tornou-se ‘impuro’ e, fazendo um retorno elíptico, ‘voltou’ para Deus” (Álvares, 1991b: 7).
Sobre os modos como se deram a suposta remissão de seus atos impuros e conseqüente consagração nos planos espirituais superiores, ou Astral Superior, pouco se sabe. O importante para os adeptos é que, após tornar-se um espírito iluminado, Pai Seta Branca teria vindo a Terra repetidas vezes, sempre na condição de executar sentenças divinas, como, por exemplo, a de auxiliar Tia Neiva na criação da doutrina do Vale do Amanhecer.
Espécie de herói civilizador da comunidade, Pai Seta Branca é certamente a entidade de mais prestígio entre os fiéis. A narrativa referente a sua trajetória cármica assume características de um mito. Definido por Eliade (1989: 12) como uma fala, o relato de uma história sagrada, de um acontecimento fundante que teve lugar num tempo primordial, no fabuloso tempo dos “começos”, para Mielietinski (1987: 200-206), o mito está normalmente associado à figura do herói, refere-se à criação de alguma coisa: o primeiro fogo, a primeira planta, os primeiros procedimentos medicinais e de caça, assim como as primeiras atitudes moralmente positivas e negativas.
De fato, entre os fiéis, a figura de Pai Seta Branca encontra-se diretamente atrelada à gênese do ser humano, passando pela criação de cidades, civilizações, entre outros, e culminado com a fundação do Vale do Amanhecer. Sua história, embora apresente algumas variações, pode ser dividida, basicamente, em cinco momentos, correspondentes ao número das supostas encarnações que ele teria tido na Terra. São elas: o equituman, o tumuchi, o jaguar, o Assis e o cacique, respectivamente.

3. Das encarnações de Pai Seta Branca: narrativas que compõem o mito.

Contam os adeptos que todos os seres humanos descendem dos habitantes de um planeta chamado Capela, cujos moradores seriam bastante desenvolvidos nos planos físico, científico e espiritual. A estes seres teria cabido a missão de colonizar a Terra. No entanto, como suas constituições físicas não lhes permitiam a adaptação ao novo planeta, tiveram que passar por uma espécie de mutação. Transformaram-se, assim, nos equitumans, seres semidivinos que, além de andróginos, mediam de três a quatro metros de altura (Cavalcante, 2000: 50).
De acordo com o adepto Álvares (1991b: 7), os equitumans chegaram a Terra em naves, estabelecendo-se na região andina, na América Latina. Viveram durante 2000 anos, até que desapareceram repentinamente, num cataclismo que atingiu o planeta. Tal acontecimento teria sido provocado pela aproximação de um corpo extraterreno, semelhante a uma nave espacial. Mortos em decorrência dos efeitos provocados por esse objeto do espaço, os equitumans teriam sido sepultados na área do atual lago Titicaca, situado entre o Peru e a Bolívia. Segundo Álvares, na linguagem do Vale do Amanhecer, essa nave ficou conhecida como Estrela Candente, e o fenômeno da formação do lago configurou-se como resultante de “uma lágrima da Estrela Candente”. O referido acontecimento teria ocorrido sob a direção de Pai Seta Branca, então comandante da nave (Álvares, 1991b: 8).
Após o desaparecimento do equitumans, Pai Seta Branca, na versão dos fiéis, teria organizado os últimos remanescentes desta civilização em grupos de sete para efetuarem uma nova “colonização” do planeta Terra. Recebendo uma outra denominação, passaram a ser chamados de orixás. Dos grupos integrados pelos orixás, no entanto, formar-se-iam inúmeros clãs de missionários conhecidos pelo nome de tumuchis (Cavalcante: 2000: 51).
De acordo com Álvares (1991b: 8), os tumuchis seriam hábeis artesãos e cientistas, avessos à guerra. Conheciam e manipulavam o potencial energético dos corpos planetários; moviam-se na superfície do planeta com naves próprias, guiados por mapas e maquetas do globo terrestre. Liderados por Pai Seta Branca, encarnado como um chefe tumuchi, teriam construído monumentos em vários pontos do planeta, podendo até hoje ser conhecidas as suas ruínas. Tal é o caso da cidade de Machu-Pichu, a famosa cidade sagrada dos incas, no Peru. Outros monumentos seriam as pirâmides do Egito e as cabeças gigantes da Ilha de Páscoa.
Passados cinco mil anos, na versão de Álvares (1991b: 9), teriam vindo os jaguares, cujo símbolo universal era a figura estilizada dos felinos. Em uma outra versão, sustentada pelos adeptos, conta-se que os jaguares teriam surgido entre os próprios tumuchis que habitavam a região andina. E que novamente liderados por  Pai Seta Branca, chamavam-no de o “Grande Jaguar”, devido a sua força e sagacidade de guerreiro, além de sua eficiência em lidar com processos químicos e físicos (Cavalcante, 2000: 51).
De acordo com Álvares (1991b: 10), diversas civilizações continuaram a surgir e a desaparecer, sempre em ciclos de 2000 anos. Com o nascimento de Jesus, porém, e a conseqüente instauração do “Sistema Crístico”, Pai Seta Branca despiu-se de sua roupagem de guerreiro e encarnou novamente na Terra, desta vez como um santo da Igreja Católica. Divulgando única e exclusivamente o amor e o livre arbítrio entre os habitantes do planeta, teria vivido na Itália como São Francisco de Assis.
No século XVI, segundo Álvares (1991b: 10-11), Pai Seta Branca estaria encarnado no planeta Terra como um cacique mestiço de um povo também andino, da região fronteiriça entre Brasil e Bolívia. Nessa época, ele seria também conhecido como Cacique da Lança Branca, devido à alvura da ponta de sua lança, a qual passou a caracterizá-lo e o tornou uma personalidade lendária. Pai Seta Branca lutava, sobretudo, pela paz e salvação dos povos, e trazia no olhar a sabedoria dos seres iluminados pelo amor divino. Fato que, nessa época, o teria feito persuadir os espanhóis de desistirem do extermínio às últimas aldeias incas. E fato que, mais tarde, de acordo com os adeptos, fez com que ele escolhesse Tia Neiva como sua substituta, convencendo-a a criar o Vale do Amanhecer.

4.  As codificações de Pai Seta Branca

Diante de tais narrativas fica explícito que as referências aos povos pré-colombianos não são fiéis ao que costumam dizer os historiadores, arqueólogos e antropólogos. Tal é o caso da criação das pirâmides egípcia, dos monumentos da Ilha de Páscoa e da cidade de Machu-Pichu. De fato, entre os adeptos do Vale do Amanhecer, os incas, maias e astecas não são exatamente aqueles conhecidos pelos pesquisadores. No que diz respeito a sua relação com Pai Seta Branca, essas menções misturam-se a outros elementos, como a nave extraterrena Estrela Candente e apresentam-se, por fim, modificadas, diferentes do que eram anteriormente.
A esse mecanismo, que opera pela recodificação de uma tradição anterior em algo inesperado e novo, pode-se chamar, segundo a semiótica russa, de modelização. Tipo de tradução ou processamento de códigos que se define enquanto passagem, travessia, movimento, portanto; e que se apresenta com freqüência no caso do objeto estudado. Nesse sentido, se existe entre os adeptos a crença em um Pai Seta Branca pré-colombiano, é fato que referências a esses povos estarão presentes, no objeto mencionado, de uma forma diferenciada, re-significada, portanto.
A codificação verbal, seja ela oral ou escrita, juntamente com a visual é, sem dúvida, a codificação de maior força de um Pai Seta Branca pré-colombiano. Ao que parece, os demais códigos, tanto os cinéticos como os sonoros, mesmo estando em permanente diálogo com os primeiros, e sendo de importância fundamental nessa formação, atuam basicamente como secundários. Contudo, para efeito de exposição neste trabalho, em um primeiro momento, deter-se-á sobre o código verbal, para em seguida se analisar o visual e as relações destes com os demais citados.
Embora pudesse ouvir e ver espíritos, teria sido a partir da fala - mítica, porque fundante - que Tia Neiva recebeu de Pai Seta Branca as informações de sua missão na Terra, e foi instruída pelas entidades na construção do Vale do Amanhecer. Pela palavra foram por ela reveladas, a toda comunidade, uma cosmogonia e uma cosmologia próprias à doutrina, e organizados os rituais, bem como a concepção física do local. Dizeres que eram passados aos adeptos por meio de palestras, conversas informais e cartas. Foi também pela palavra, em seus supostos encontros com a clarividente, que Pai Seta Branca teria contado, entre outras histórias, a sua própria. História que fala de incas, mais e astecas, e que assume, pelo mecanismo da recodificação, uma feição e características singulares, marcadas pelo inesperado e pelo status de pura criação.
O fato de os equitumans terem se estabelecido na região dos Andes e serem sepultados na área do atual lago Titicaca, dando origem inclusive à formação do referido lago, como resultante de “uma lágrima da Estrela Candente”, mostra bem esse aspecto de recodificação. O lago Titicaca é, de fato, uma referência importante para alguns povos andinos, seja por seu aspecto sócio-econômico - relativo à moradia e à atividade da pesca -, seja em seu aspecto mítico. Segundo Zuidema (1991: 25), há uma narrativa que conta como Manko Kapác, fundador da dinastia dos reis incas, chegou a Cusco, capital do império inca. Nessa versão, ao invés de ele ter supostamente surgido, juntamente com seus três irmãos, de uma gruta, como relata Favre (1988: 14), o herói civilizador e ancestral mítico do povo mencionado, apareceu pela primeira vez no mundo como nascido do lago Titicaca.
Outra referência de destaque presente no Vale do Amanhecer é à cidade de Machu-Picchu, o famoso santuário Inca. Nas narrativas míticas dos seguidores de Tia Neiva, as ruínas dessa cidade nada mais seriam que provas da existência da civilização tumuchi que, assim como a dos incas, segundo Favre (1988: 75-84), eram constituías por hábeis artesãos, grandes cientistas (astronomia e matemática) e arquitetos.
E se, segundo Favre (1988: 9), os pré-incaicos chavín (1800-400 a.C.) cultuavam o jaguar, no Vale do Amanhecer a figura desse felino não é menos importante. Para os seguidores de Tia Neiva, Pai Seta Branca encarnou na Terra como o “Grande Jaguar”, líder extremamente respeitado por sua coragem, astúcia e conhecimentos científicos. No Vale, o nome jaguar se estende, ainda, a todos os adeptos do sexo masculino, como uma forma de rememorar as façanhas do notável guerreiro e de reconhecê-los, também, como valentes e integrantes, em uma outra vida, do grupo comandado por Pai Seta Branca.
Há um aspecto interessante entre as narrativas míticas dos astecas, que é o da associação entre o jaguar, o sol e o seu oposto, a noite. De acordo com Soustelle (1987: 74), os astecas acreditavam que o mundo fora precedido por quatro outros universos, os “Quatro Sóis”, dentre os quais o primeiro chamava-se “Quarto-jaguar”. Este sol teria desaparecido em um gigantesco massacre, no qual os homens haviam sido devorados por jaguares. Segundo ele, entre o referido povo, o jaguar correspondia a Tezcatlipoca, deus das trevas e do céu noturno pontilhado de estrelas, tal qual a pelagem do felino. Vale dizer ainda que os astecas eram, por excelência, o “povo do sol”. E que, conforme Soustelle (1987: 14), em suas origens, já adoravam o deus solar e tribal Uitzilopochtli.
O Sol era também adorado pelos incas (1200-1572 d.C.), com o nome de Inti. Viracocha, seu oposto complementar, foi também uma divindade importante para o panteão incaico. Estava associado à terra e à água e foi, para os habitantes de Tiahuanaco, segundo Busto (1998: 1), o criador dos homens. De acordo com Ferreira (1995: 54), Viracocha era o deus criador e civilizador do universo. Após terminada sua obra, partiu pelo mar em direção ao Oeste; estando, assim, associado à costa. Já o Sol, deus principal e fonte da vida, teve seu culto difundido e imposto a todas as comunidades conquistadas nos Andes centrais. De acordo com Wachtel (apud Busto, 1998: 1-2), o Sol e Viracocha são deuses complementares por traduzirem as categorias do pensamento inca, além de entrarem em um sistema de correlações e oposições. Ao Sol referem-se o céu, o fogo a serra e o alto; a Viracocha, a terra, a água, a costa, e o baixo. Partes de uma visão global do mundo, formada a partir de uma mesma cosmogonia que comporta indivíduos bem como as dimensões de espaço e tempo.
Tal correspondência entre o Sol e Viracocha parece explícita na representação geralmente atribuída ao segundo, nas ruínas de Tiahuanaco, na área boliviana, próxima ao lago Titicaca. De cabeça retangular, contornada por uma auréola formada por raios e um rosto que parece humano, o deus ocupa o centro da famosa Porta do Sol, importante monumento do mundo andino. Está em posição frontal e segura um par de báculos, com forma de condores de pescoços compridos, mostrando-se adorado por quarenta e oito pequenas criaturas. Nesse caso, o Sol e Viracocha estão unidos não apenas em termos de narrativa, mas também de iconografia, pelos raios que circundam a cabeça do último.
            Essa figura guarda uma forte semelhança com imagem do jaguar do Vale do Amanhecer, presente nas insígnias e roupas dos fiéis, bem como nas paredes dos templos. A figura do jaguar do Vale também é apresentada em perspectiva frontal; no entanto, não tem um corpo. Resume-se a uma cabeça, semelhante à do deus Viracocha. Essa cabeça é igualmente circundada por feixes de luz que lembram raios solares, embora sejam coloridos, como os do arco-íris. Tal referência é legitimada inclusive pelo adepto Vladimir Carvalho (06/1995) ao fazer alusão ao jaguar do Vale: “é um jaguar estilizado (...) se você for no altiplano boliviano, na Porta do Sol, você vai encontrar essa cabeça (...)”.

A associação Viracocha - jaguar é uma criação dos adeptos do Vale do Amanhecer. Ideia que tem como base um relativo conhecimento da iconografia não apenas andina, mas pré-colombiana de um modo geral. De fato, a imagem do jaguar é constantemente representada na arquitetura e nas artes dos povos mencionados. E se Cusco, em seus primórdios, tinha a forma de um puma (felino da família do jaguar) - da qual a fortaleza de Sacsahuan seria a cabeça, enquanto que a confluência dos dois rios que atravessam a cidade formaria a cauda -, como afirma Favre (1988: 67-69), no Museo de La Nacion e no Museo del Oro, ambos em Lima, pode-se encontrar algumas representações, sobretudo de divindades pré-incaicas, com formas híbridas. Na maioria dos casos, verifica-se uma mistura de traços humanos com os de um jaguar, podendo-se verificar, também, a presença de animais alados.
A imagem do Sol, juntamente com a Lua, também é uma constante nas figurações do Vale do Amanhecer. Estão inclusive sobre o templo principal da comunidade, o qual tem sua fachada feita de pedras, lembrando as ruínas de algumas de suas supostas encarnações, como a dos pré-colombianos. Considerados como divindades entre grande parte dos povos mencionados, no Vale, o Sol e a Lua são elevados à categoria de “astros guia” da doutrina. As cores que os representam são sempre o amarelo ou o dourado e o azul ou o prateado, respectivamente. Enquanto a lua é associada ao princípio feminino, entre os adeptos, o sol é visto enquanto centro de energia vital do universo. Simboliza o Oráculo de Ariano - foco irradiador de energia -, também conhecido como Oráculo de Simiromba ou Oráculo de Pai Seta Branca.
Na iconografia do Vale do Amanhecer, Pai Seta Branca, ou Cacique da Lança Branca - se lembrado em sua em sua última encarnação -, é sempre um índio de aparência bonita, jovem e altiva. Veste-se com uma túnica azul, um longo cocar e usa sandálias de couro. Tem olhos puxados, pele morena, e segura com as duas mãos uma flecha/lança de seta (ponta) branca, como indicado em seu próprio nome - relação que evidencia um nítido diálogo entre os códigos verbais e visuais.

Pai Seta Branca/ pintura de Vilela
O texto Pai Seta Branca pré-colombiano pode ser percebido, ainda, em sua codificação cinética. Segundo os adeptos, a referida entidade incorpora em alguns rituais do Vale do Amanhecer, como é o caso da Benção de Pai Seta Branca, realizado no primeiro domingo de cada mês e o Oráculo, executado nos dias de quarta, sábado e domingo (dias de trabalho oficial). Há também uma benção anual, concedida pela entidade no dia 31 de dezembro, por ocasião da passagem do ano.
Falando em um espanhol bastante rudimentar, o espírito, supostamente incorporado no corpo de um fiel, apresenta, invariavelmente, um semblante, um gestual e um tom de voz tranquilos. Manifestação que só se dá após o cumprimento de preceitos rigorosos por parte dos adeptos. Os rituais do Vale são extremamente complexos: exigem a presença de um grande número de fiéis, devidamente paramentados e conhecedores de uma organização minuciosa, em que palavras, canto, gestos e movimentos são rigidamente pré-estabelecidos. Rituais, aliás, que se encontram descritos em ricos detalhes em um dos livros editados pela comunidade e que mostram, em sua constituição, a íntima relação entre os códigos verbais, visuais, sonoros e cinéticos.
Fazendo uma nova ligação entre o verbal e o cinético, e estabelecendo a relação destes com o código sonoro, há um canto da comunidade que, segundo Álvares (1991a: 30), atua como um chamado à referida entidade. Pai Seta Branca ao ouvir tal canto, teria facilitado seu deslocamento dos planos espirituais para o plano físico. “Divino Seta Branca/ Tu és a lei de Deus/ Imaculado sejas tu/ Juntinho aos pés de Jesus/ Seta Branca querido por nós/ Tu és o Amor e és a luz/ Que iluminas os tiranos corações/ Erguendo seus filhos a Jesus”.
Mas não é apenas o canto criado pela comunidade que, segundo os adeptos, refere-se a Pai Seta Branca. Há, para seus devotos, uma outra forma de musicar a entidade. Uma nova modelização, entre as tantas já apresentadas, que se verifica a partir da tradução de uma tradição estranha à entidade indígena, em algo inesperado e de fácil leitura. Os adeptos do Vale apropriaram-se de uma música de Caetano Veloso, e dela fizeram uma referência direta à entidade em questão.
Sobre esse assunto, Martins (2001: 2) afirma que Ana, uma mulher criada pela clarividente, fala do tempo em que o artista baiano foi recebido por Tia Neiva no Vale do Amanhecer. Depois de conversar longo tempo com a clarividente, Caetano Veloso teria ido visitar o templo de pedra, ou templo principal. A emoção de ver imagem de Pai Seta Branca, ali, diante de seus olhos e em grandes proporções, teria sido tão grande que ele compôs, em homenagem à entidade, a música “Um índio” [1] .
De fato, como diz a autora,
a canção de Caetano põe em evidência o personagem central mais sagrado da doutrina do amanhecer, o cacique inca Pai Seta Branca, cuja imagem está sentada no centro do templo de pedra, impávido, tranqüilo e infalível, preservado em pleno corpo físico, a esperar a entrada da nova era (Martins, 2001: 2).
Desse modo, se na canção de Caetano, um índio descerá de uma estrela colorida brilhante e pousará no coração do hemisfério sul na América, de acordo com Martins,
para os seguidores da doutrina do amanhecer, o índio é o Pai Seta Branca, cacique inca, mentor espiritual da Tia Neiva. A estrela colorida e brilhante é a Estrela Manhante, lugar onde vivem os espíritos mais evoluídos que descem ao Vale do Amanhecer para trabalhar incorporando nos médiuns, com a finalidade de promoverem a cura do espírito [ou seria a Estrela Candente?]. O coração do hemisfério sul da América, o ponto eqüidistante entre o Atlântico e o Pacífico, o centro do mundo, lugar predestinado para se encontrarem os que se preparam para a entrada do terceiro milênio é o próprio Vale do Amanhecer (Martins, 2001: 2).
E mais: se, na música de Caetano, no momento em que o índio descer, o que se revelará aos povos, surpreenderá a todos não por ser exótico, mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio significa, segundo Martins (2001: 2), referindo-se aos adeptos, que Pai Seta Branca descerá para encerrar o milênio. E que levará, consigo, os seguidores da doutrina do amanhecer para o Astral Superior - lá estaria situado o planeta Capela -, onde não mais terão a necessidade de encarnar e onde não mais perecerão de dor e sofrimento. Assim, com a chegada de Pai Seta Branca a Terra, na visão dos fiéis, será aplicada a lei da evolução dos espíritos e, como profetizaria a música de Caetano, tudo o que antes parecia pertencer ao ocultismo, mostrar-se-á como o óbvio [2] .

5. Referências bibliográficas

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MARTINS, Maria Cristina de C. “O Amanhecer de uma Nova Era: uma análise do espaço sagrado e simbólico do Vale do Amanhecer”. In http://www.ifcs.ufrj.br/jornadas/papers/09st0805.rtf, acessada em 28/08/2001
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SOUSTELLE, Jacques. A civilização asteca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1987.
ZUIDEMA, R. Tom. La civilizacion inca en Cusco. México: Fondo de Cultura Económica, 1991.
* Entrevistas com os adeptos do templo de Brasília nos períodos de 22 a 30 de julho e de 02 a 12 de dezembro de 1995, de 28 a 05 de dezembro de 1996, 17 a 21 de outubro de 1997.



[1] A música de Caetano tem a seguinte letra: “Um índio descerá de uma estrela colorida brilhante/ de uma estrela que virá numa velocidade estonteante/ e pousará no coração do hemisfério sul na América num claro instante/ Depois de exterminada a última nação indígena/ e o espírito dos pássaros das fontes de água límpida/ mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias/ virá impávido que nem Muhammad Ali/ virá que eu vi/ apaixonadamente como Peri/ virá que eu vi/ tranqüilo e infalível como Bruce Lee/ virá que eu vi/o axé do afoxé dos filhos de Gandhi, virá./ Um índio preservado em pleno corpo físico/ em todo sólido todo gás e todo líquido/ em átomos palavras alma cor em gesto em cheiro em sombra em luz em som magnífico/ Num ponto eqüidistante entre o Atlântico e o Pacífico/ de um objeto sim resplandecente descerá o índio/ e as coisas que eu sei que ele dirá fará não sei dizer assim de um modo explícito/  E aquilo que nesse momento se revelará aos povos/ surpreenderá a todos  não por ser exótico/ mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto/ quando terá sido óbvio” (Franchetti, Pécora, 1981: 93).
[2] É importante salientar que, para os seguidores da doutrina, a passagem do milênio, embora diga respeito à época atual, não corresponde ao exato momento e data estipulados pelos calendários comuns. O tempo do Vale é um tempo sagrado, tem um ritmo próprio, distinto do profano. Desse modo, a chegada de Pai Seta Branca ainda está por acontecer.