Sobre o Blog

Blog sobre o Vale do Amanhecer, Doutrina concebida pela Espiritualidade Maior e executada por Neiva Chaves Zelaya, um Espírito de Luz Altíssima, conhecido nos Planos Superiores por Agla Koatay 108. O Vale recebe pessoas sem distinção para solução de problemas espirituais. Nada cobra de seus pacientes e nem exige frequência. Temas espirituais diversos são tratados aqui. Vicente Filgueira, Adjunto Esdalvo - Jornalista (Registro Profissional Fenaj 274/03/38§ v/DRTGo-01364-SJP)


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30 de abr de 2011

Rituais em Super 8

Esta comunicação procura descrever e analisar o uso do filme e da linguagem cinematográfica na pesquisa em antropologia, a partir de um estudo sobre rituais realizado na comunidade religiosa milenarista do Vale do Amanhecer (D.F., Brasil). Apresento dados de minha tese de doutorado, na qual associei procedimentos da metodologia clássica em antropologia a métodos audiovisuais, em particular, o uso do filme (Super 8mm e vídeo Hi8mm) na produção de imagens, destacando a observação diferida das imagens rituais.

As cerimônias religiosas do Vale do Amanhecer caracterizam-se por um espetáculo visual que encontra sua principal força no conjunto heteróclita das indumentárias rituais e nas técnicas corporais dos adeptos. Com o objetivo de celebrar o corpo, as indumentárias impõem limites aos movimentos e gestos dos participantes, estabelecendo um padrão de comportamentos rituais.Autor: Marilda Batista
Doutora em Antropologia e Cinema pela Université de Paris X-Nanterre

*Marilda Batista
Revista Chilena de Antropología Visual - número 4 - Santiago, julio 2004 -
286/299 pp. - ISSN 0718-876x.
Rev. chil. antropol. vis.



Neste trabalho, apresento dados de minha tese de doutoramento, na qual desenvolvi um estudo sobre os rituais da comunidade religiosa milenarista do Vale do Amanhecer (DF). Associando a perspectiva antropológica à metodologia audiovisual, o filme foi utilizado como principal meio de exploração e suporte para a análise dos rituais, em particular, no estudo do ritual da Estrela Candente. Foram colocados em evidência os aspectos cênicos das práticas rituais com o propósito de restituir e comparar as diferentes mises en scène. A observação diferida das imagens fílicas  e  a   análise das inúmeras mises en scène rituais revelaram a existência de uma verdadeira lógica do espetacular, sendo esta uma das chaves para a compreensão do processo ritual na comunidade. O estudo busca contribuir para o desenvolvimento do conhecimento do campo religioso, ao evidenciar a pertinência do uso da linguagem cinematográfica na pesquisa antropológica.

O Vale do Amanhecer é uma comunidade religiosa, com aproximadamente sete mil habitantes, situada a cinqüenta quilômetros de Brasília, próxima da cidade-satélite de Planaltina. Os habitantes da comunidade são, em sua maioria, funcionários públicos ou trabalham no setor terciário e se deslocam diariamente para trabalhar em Brasília. Além dos adeptos que frequentam a sede da comunidade, existiriam cerca de setenta mil adeptos em todo o Brasil, repartidos nos trezentos templos externos, de acordo com as estatísticas informais da própria comunidade.


Na década de oitenta, a comunidade foi amplamente divulgada pelos meios de comunicação locais, tendo sido feitas várias reportagens em jornais e revistas, quando serviu até de cenário a capítulos de uma telenovela de grande audiência transmitida para todo o país.

De inspiração milenarista, o Vale do Amanhecer visa preparar a humanidade para a chegada do terceiro milênio, período que, acredita-se, será precedido de conflitos e cataclismas apocalípticos, dos quais os únicos sobreviventes seriam o “povo eleito” constituído pelos membros da comunidade. O conjunto dos “ensinamentos” ou a doutrina do Vale do Amanhecer é fundamentalmente inspirada no espiritismo de Allan Kardec. Como no espiritismo kardecista, a noção de “mediunidade” se encontra no centro da doutrina do Amanhecer, qualquer pessoa podendo se tornar médium e, consequentemente, um adepto da comunidade, desde que desenvolva sua mediunidade.

A comunidade foi fundada em 1959 por uma mulher, Neiva Chaves Zelaya, na mesma época da criação de Brasília. Segundo relatos de adeptos e documentos publicados pela comunidade, Neiva tinha apenas 24 anos quando ficou viúva com quatro filhos pequenos. Foi então que resolveu deixar o Nordeste, sua região natal, para partir em direção ao Planalto Central a fim de exercer a profissão de motorista de caminhão. Dizia-se que, naquela época para ser respeitada, Neiva levava seus filhos consigo na boléia de seu caminhão.

De forte personalidade, ao mesmo tempo vaidosa e determinada, Neiva foi obrigada, alguns anos depois, a abandonar seu trabalho de motorista de caminhão, pois começou a ter visões que a impediam de trabalhar. Através destas visões, Neiva recebeu um chamado para se consagrar a uma missão especial, ou seja, à fundação de uma comunidade destinada a auxiliar as pessoas necessitadas.

A partir daquele momento, Neiva, clarividente e guiada por suas visões, decidiu dedicar sua vida à edificação da comunidade do Vale do Amanhecer, sendo, desde então, carinhosamente chamada pelos adeptos de Tia Neiva.

Apesar de sua morte aos sessenta anos de idade em 1985, Tia Neiva permanece uma figura carismática, sendo objeto de grande devoção entre todos os adeptos. Após seu falecimento, um grupo de quatro pessoas, todos homens, assumiu a direção da comunidade, incluindo seu companheiro Mário Sassi. Atualmente, três membros da direção, juntamente com os filhos de Tia Neiva, mantem o controle da comunidade.

Desde sua fundação, o Vale do Amanhecer consagrou-se como um lugar de trabalho ritual e terapêutico organizado em torno da clarividente Tia Neiva, cujos poderes sobrenaturais sempre foram reconhecidos por toda a comunidade. Por sua mediunidade, pelos contatos desenvolvidos com o mundo sobrenatural e seus poderes de cura, Tia Neiva assemelha-se à figura do profeta, “portador de carismas pessoais”, tal como foi definido por Max Weber.

Dando origem ao que, posteriormente, seria estabelecido como sendo a doutrina do Vale do Amanhecer, as primeiras mensagens de origem divina, recebidas através das visões de Tia Neiva, foram transcritas à mão pela clarividente transformando-as em cartas endereçadas aos adeptos. Levando em conta que Tia Neiva, semi-analfabeta, não tinha o domínio da escrita e a fim de facilitar a leitura, as cartas foram posteriormente datilografadas, fotocopiadas e distribuídas entre os adeptos visando sua formação. De acordo com os membros da comunidade, toda e qualquer criação da doutrina e das práticas rituais provem de mensagens divinas, sendo Tia Neiva a única e exclusiva porta-voz do mundo dos espíritos.
À medida que as revelações foram sendo feitas, constituíam-se gradativamente os elementos materiais que hoje se encontram presentes no espaço físico da comunidade, bem como no aparato ritual, em particular, nos trajes, indumentárias e atributos usados pelos adeptos durante as cerimônias.

No contexto ritual do Vale do Amanhecer, os trajes e atributos usados pelos adeptos são ostensivos e permitem situar os médiuns uns em relação aos outros no que diz respeito aos estatutos, nível de participação e função nos rituais, bem como ao pertencimento a uma linhagem espiritual. Os atributos colocados em evidência têm a forma de cruzes, triângulos, imagens de divindades protetoras, assinaturas e títulos referentes ao estatuto de cada membro. Há também uma relação entre o número de trajes que o adepto possui e o nível de responsabilidade associados a seus papéis e funções. Assim, quanto mais o adepto evolui em sua condição de iniciado, maior autoridade lhe será atribuída e maior será o numero de trajes e de sinais visuais de identificação nas indumentárias.

Os adeptos do Vale do Amanhecer constituem-se em duas categorias: os homens chamados de “jaguar” e as mulheres de “ninfa”.. Organizados em pares -homem, mulher- durante os rituais, os adeptos atuam segundo o tipo de orientação ou mediunidade. Assim, os médiuns podem ser classificados em “mestre sol” ou “mestre lua”. O mestre sol também conhecido por mestre de doutrina ou “doutrinador” tem por função doutrinar os espíritos, enquanto o mestre lua denominado mestre de incorporação ou “apará"5. A palavra apará seria uma abreviação de Nossa Senhora de Aparecida, padroeira do Brasil., se torna, no momento do transe, o aparelho através do qual os espíritos se manifestam.


Ao propor duas formas de mediunidade, a doutrina do Vale do Amanhecer funda a divisão dos papéis sexuais complementares nas funções rituais na base de “qualidades” femininas e masculinas, histórica e socialmente construídas. Os médiuns “apará”, em sua grande maioria, mulheres, são identificados à emoção, ao corpo, às forças da lua, enquanto que os médiuns “doutrinador”, na maior parte, homens, estão relacionados com a razão, a palavra, as forças do sol, categoria da qual fazem parte grande número dos líderes da comunidade.

Durante a primeira fase de iniciação, o médium usa um traje simples e sóbrio, os homens vestem calça preta com uma túnica branca, enquanto que as mulheres vestem um longo vestido branco de mangas três-quartos. Após algumas semanas, estes mesmos médiuns serão autorizados a usar insígnias em forma de estrela, triângulo, cruz contendo os nomes das entidades protetoras. Algum tempo depois, ao se tornar mestre, o médium será autorizado a vestir a roupa de “jaguar”, ou seja, calça marrom e camisa preta, na versão masculina, e saia longa marrom com blusa rendada preta, na versão feminina. Ambos adeptos usarão um colete branco de couro ou de plástico onde haverá várias insígnias, presas com alfinetes, incluindo cartão com a foto de identidade, juntamente com assinaturas indicando o grau de “mestre jaguar”. Após ter adquirido a formação necessária correspondente ao nível de “mestrado”, os médiuns poderão vestir os trajes característicos das falanges missionárias, capas masculinas e conjuntos bem mais sofisticados, em sua versão feminina, acompanhados de véus, luvas, pentes e capas em tecidos leves, coloridos e brilhantes, especialmente criados para as cerimônias na Estrela Candente.

Existem vinte e dois grupos de falanges missionárias com características e atribuições próprias compostas, exclusivamente, por mulheres e, somente, dois grupos formados por adeptos homens.

O espaço físico da comunidade foi edificado através da construção de monumentos e áreas de culto localizadas nas imediações do templo principal. A maior parte das construções caracterizam-se pela presença de painéis em pontos estratégicos, visíveis a todos, fazendo referência à preceitos e dogmas da doutrina do Amanhecer. No caminho que leva o adepto do templo principal ao espaço sagrado da Estrela Candente, avista-se uma colina contendo a inscrição em letras monumentais “Salve Deus” lembrando a saudação utilizada entre os membros da comunidade com a qual Tia Neiva sempre iniciava ou terminava suas cartas.

Dentre as práticas rituais, destaca-se o ritual da Consagração também conhecido pelo nome de Estrela Candente, em referência ao espaço ao ar livre construído especialmente para as cerimônias. Considerado como sendo o cartão postal da comunidade, o ritual da Estrela Candente é celebrado diariamente, três vezes ao dia, com uma duração aproximada de quarenta e cinco minutos e a participação de um mínimo de trinta adeptos. Um grupo limitado de pessoas não iniciadas -de cinco a dez no máximo- podem assistir às cerimônias, de forma passiva, na condição de pacientes buscando se beneficiar com as energias manipuladas durante os rituais. Segundo os adeptos da comunidade, o ritual da Estrela Candente tem por objetivo principal receber as energias positivas trazidas pelos espíritos em naves espaciais que aterrissam três vezes ao dia, em horários específicos, bem como enviar para outros planos os espíritos nefastos, responsáveis por todos os males na superfície terrestre. As energias positivas acumuladas durante os rituais da Estrela Candente serão assim utilizadas posteriormente em todas as cerimônias e, em particular, nos rituais de cura também praticados na comunidade.

Com um atendimento aberto ao público diariamente das dez às vinte e duas horas, o Vale do Amanhecer se define como sendo um “pronto-socorro universal”, denominação utilizada pelos próprios membros da comunidade.

No espaço ritual da Estrela Candente, encontram-se diferentes elementos, também representados com dimensões espetaculares, onde estão gravadas inscrições com preces. Estas inscrições têm por objetivo auxiliar a memória dos adeptos no momento da prática ritual. No decorrer do ritual, pode-se observar a importância dada à escrita através da representação de um livro aberto pintado numa enorme lápide em forma triangular localizada no alto da cachoeira. O livro contém uma prece que deve ser recitada pelos adeptos numa determinada fase do ritual, no exato momento em que cruzam a ponte que passa em cima da cachoeira.


O controle dos organizadores sobre os adeptos é exercido, em grande parte, com a ajuda de manuais e de formas escritas no próprio espaço ritual. Mesmo se uma grande proporção de adeptos do Vale do Amanhecer provem de classes populares, eles possuem um mínimo de instrução que lhes permite ler as diversas indicações escritas. No decorrer dos rituais, é possível, de fato, orientar-se graças às indicações visuais que se apresentam na forma de textos, lembrando de maneira visível e em momentos precisos, as preces que devem ser recitadas. Os exemplos que foram escolhidos atestam a importância atribuída à regra escrita, visto que as preces encontram-se representadas com formas monumentais. A representação visual pela escrita assume uma função determinante na medida em que ela ordena e mantém uma certa unidade ao longo dos rituais.

Divindades astecas e egípcias, pretos-velhos, princesas e caboclos encontram-se representados lado a lado no impressionante conjunto de indumentárias rituais utilizadas pelos adeptos no decorrer das cerimônias.
Além da diversidade do vestuário do corpo mediúnico, os agentes dos rituais recitam preces misturando frases e gestos que permanecem incompreensíveis aos leigos, tanto quanto a multiplicidade de imagens e símbolos presentes no espaço ritual. Alvo de curiosidade freqüente da parte de turistas e até mesmo de representantes de outras religiões, o Vale do Amanhecer, algumas vezes incluído no roteiro turístico da cidade, atrai muitos turistas e simpatizantes. Seria, precisamente, a qualidade do espetáculo proposto pelos rituais da comunidade um dos fatores que justificaria em parte o sucesso diante de um público de adeptos e de simples visitantes?
Esta hipótese inicial levou-me a abordar, em prioridade, os aspectos visuais dos rituais utilizando o cinema e o vídeo como instrumentos de pesquisa.

Referências bibliográficas:*Batista, Marilda: Les dimensions spectaculaires du rituel de l’Estrela Candente au Vale do Amanhecer (Brésil). Une étude d’anthropologie filmique. (Tese de doutoramento orientada pela Prof.a Dra. Claudine de France), Université de Paris X-Nanterre, 2000.Comolli, Annie: Les Gestes du savoir ou la découverte filmique des apprentissages. Nanterre, Université de Paris X, Formation de Recherches Cinématographiques, collection Cinéma et Sciences Humaines n° 1, 1991 [1983].
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